Maracatu around the world

na foto Maracatu Estrela Brilhante – Pernambuco

“Embebedadas pela percussão, dançam lentas, molengas, bamboleando levemente os quartos, num passinho curto, quase inexistente, sem nenhuma figuração dos pés. Os braços, as mãos é que se movem mais, ao contorcer preguiçoso do torso. Vão se erguendo, se abrem, sem nunca se estirarem completamente no ombro, no cotovelo, no pulso, aproveitando as articulações com delícia, para ondularem sempre. Às vezes, o torso parece perder o equilíbrio e lentamente vai se inclinando para uma banda, e o braço desse lado se abaixa sempre também, acrescentando com equilíbrio o seu valor de peso, ao passo que o outro se ergue e peneira no ar numa circulação contínua e vagarenta…”

Assim Mário de Andrade descreveu a dança das yabás (baianas) do Maracatu em seu livro Danças Dramáticas do Brasil II. O olhar estrangeiro de um paulista revelando ao resto do Brasil o que há no Brasil. E felizmente, essa manifestação cultural da música folclórica pernambucana afro-brasileira ganhou o mundo e hoje pode ser encontrada do Yapok ao Chuí, acima e abaixo da linha do equador.

Esta manifestação é formada por uma percussão que acompanha um cortejo real. Como a maioria das manifestações populares do Brasil, é uma mistura das culturas índigena, africana e européia. Surgiu em meados do século XVIII. Foi criada para formar uma crítica as cortes portuguesas.

Mas porquê uma tradição como esta poderia interessar e ser reproduzida em países de culturas tão distintas da nossa?   Para entender como ela se reproduz,  a CPBrazil conversou com representantes do Maracatudo Mafuá e Maracatu Estrela do Norte, da Inglaterra; Maracatu New York, dos Estados Unidos; e Maracatu Toca Brasa, da França. A nossa conversa começou com Mariana Pinho, uma brasileira à frente de um grupo de maracatu na Inglaterra.

MARIANA PINHO (Maracatudo Mafuá) nascida em Brasília e “crescida” no Rio de Janeiro. Como boa sagitariana, sempre em busca de desafios, em 2004 mudou-se para Inglaterra levando consigo seu artesanato. Suas coloridas Bolsas de Balão a levaram para acima da linha do equador. Em Londres é recebida pela London School of Samba onde passa a trabalhar como figurinista e dançarina.  A partir daí começa a dar aulas e participar de shows. “Ter nascido em Brasília me ensinou a admirar a diferença. Quando Alfredo Belo me levou num terreno de terra vermelha na cidade satélite Ceilandia para ver Nação Pernambuco fui iniciada no Maracatu. Hoje Alfredo Belo tem um selo próprio chamado Mundo Melhor, que trabalha com as tradições populares“.

A escolha do nome do grupo na verdade é uma grande homenagem. Maracatudo vem de “Maracatudo Nação Camaleão”, de Pernambuco, que apadrinha o grupo de Londres. E a homenagem não pára por aí, já que uma vez por ano o grupo coordenado por Mariana arrecada fundos para enviar ao padrinho. A escolha se deu também porque o grupo pretende trabalhar outros ritmos, apresentando assim, outras influências. Já o nome Mafuá foi escolhido por ter sido o nome da loja de sua mãe na Tijuca, e por significar um amontoado de coisas e pessoas. Outro significado para mafuá é “confusão alegre”, aquela encontrada em feiras e mercados. E também na casa de Mariana, onde acontecem os ensaios e são confeccionadas as fantasias.

O grupo criado em agosto de 2009 teve seu primeiro show na primeira edição do Brazilian Day, e desde então marca presença nos principais eventos de brasileiros em Londres  como SouthBank Brazil Festival, Brazilian Day II, World Cup Games Jungle Drums, em locais da cena jovem como Favela Chic, Camino,Dingwalls, Norwich Arts centre, Desfile de rua  em Folkestone, no Centro de Carnaval em Luton e em Festivais Locais como Brockley Max e  Ping Brazil. O Maracatudo Mafuá encerrou o ano de 2010 com um show inovador, através do projeto Masters Nation, onde puderam dividir o palco do Favela Chic com os Mestres Afonso ( Maracatu Nação Leão Coroado) , Mestre Arlindo (Maracatu Nação Cambinda Africando) , Mestre Gilmar (Maracatu Nação Estrela Brilhante de Igarassu) e Natty, cantor inglês.  Este projeto levou três mestres a quinze cidades da Europa e reuniu vinte e dois grupos de maracatu de todas as partes.

“as pessoas se encantam com o maracatu por ter uma força e ao mesmo tempo uma sutileza de movimentos, especialmente para aqueles que não se identificam com os ritmos brasileiros mais populares como samba e os ritmos da Bahia. Além de ter referências mais próximas da européia. Os batuqueiros da Irlanda, são um exemplo disso, que traçaram um paralelo entre as alfaias e os tambores tradicionais irlandeses. Coisa de ficar boquiaberto mesmo!”.

Anualmente Mariana retorna ao Brasil para se reciclar e através da associação Gandaia Arts promove projetos educacionais, shows e cursos por toda a Europa. O grande projeto para este ano é promover em junho a segunda edição do Masters Nation  em parceria com a Beat Carnival na cidade de Belfast. No mesmo solo de Mariana encontramos…

SAM ALEXANDER (Maracatu Estrela do Norte),

nascido e “crescido” inglês. Sam trabalha como educador numa instituição para jovens infratores. Fundou o primeiro grupo de maracatu de baque virado da Inglaterra. E seu primeiro contato com uma expressão tipicamente brasileira se deu através de um chileno:

“eu tinha uns 15 anos, era punk, rebelde, usava roupas pretas e um dia um chileno me deu carona na estrada. Ficamos amigos e ele me levou para a London School of Samba. Depois disso comecei a me interessar pelas coisas do Brasil”.

Até que em 1991 ele fez as malas e foi parar em Olinda. Agora com outro figurino, outra sonoridade. Não era mais punk, mas sambista. Chegou a gravar com o Zé da Flauta, um importante músico da cena pernambucana.  Passou também por Salvador e Recife, onde conheceu outro dos nossos ritmos, o Maracatu.

Voltando à Inglaterra funda seu próprio grupo de maracatu, uma vez que ainda não havia nenhum outro. Hoje o Maracatu Estrela do Norte tem de trinta a quarenta integrantes, entre eles apenas dois brasileiros. Sam diz que a participação dos brasileiros é pequena porque eles não vão para a Inglaterra tocar música brasileira, a menos que sejam profissionais. O Maracatu Estrela do Norte participa todos os anos do Notting Hill Carnival (o carnaval de Londres, que acontece no mês de agosto).

Para Sam o maracatu é algo meio espiritual, o toque é a coisa mais bonita, é livre. Acredita que é difícil para os estrangeiros entenderem a manifestação e o ritmo porque é menos óbvio que o samba que tem uma divisão rítmica mais próxima da música européia. Diz também que quem promoveu o maracatu na Inglaterra foi Chico Science.

A previsão é que, até agosto deste ano, o Maracatu Estrela do Norte tenha sede própria. Não muito distante dali, na França…

CÉLINE BATATINHA (Maracatu Toca Brasa), que nasceu numa cidade francesa com dois mil habitantes chamada Reuilly.

Seu contato com a música brasileira se deu quando mudou de sua cidade e foi trabalhar em Orléans. Um dia voltando do trabalho escutou uma batucada na rua. Guiada pelo ritmo apaixonou-se pelo que viu e ouviu. E assim começou a tocar samba com o grupo Batucada.

O mestre do grupo, que amava música brasileira e trabalhava na produção de shows como Songo, Renata Rosa, Silvério Pessoa, Coco Raizes de Arcoverde, seu Luis Paixão, Mestre Ambrosio, Valdir Santos, Banda Eddie, entre outros, deu a oportunidade de Céline conhecer vários músicos brasileiros.

“Eu escutava a maneira deles falarem do Brasil… nunca tinha ouvido alguém falar do próprio país com tanta paixão, e assim me apaixonei também pelo povo brasileiro  e pelo português. Muitas razões para ter  um só objetivo : ir pro Brasil!”.

Desde 2000 tocando samba, o Batucada desejava enveredar por músicas mais tradicionais, como define Céline. Então, em 2004 ela faz sua segunda viagem para Recife quando então é apresentada ao maracatu pelo grupo Batuque Usina.

“Foi nessa época que a gente organizou uma viagem com os membros da Associação Batukando. Comecei a tocar na Usina e quando o resto da turma chegou a gente fez uma semana de oficina. Na volta montamos o grupo de maracatu Toca Brasa (Bloco Doido na época)”.

Nunca houve por parte do grupo o desejo de tentar fazer algo “tradicional” porque acham que o público não está pronto para escutar duas horas só de maracatu.

Eles acreditam que ter calungas, rei, rainha descontextualiza a manifestação porque não faz parte da cultura local.

“Tem as ligações com a religião que a gente não entende realmente… O publico gosta da diferença de ritmos, danças, energias…  a qualidade da música é primordial, mas também a energia, o prazer que a gente tem tocando é que agrada o público”.

Hoje o Toca Brasa ensaia três horas semanais, sempre às quintas-feiras. Ninguém é profissional e para Céline este é o segredo: amigos tocando juntos por prazer. Ela conta que há uma verdadeira paixão e sede de aprender mais sobre o Brasil.

“Tem seis pessoas que viajam mais de duzentos quilômetros pra ensaiar toda quinta, além dos ensaios tem os shows, reuniões, é muita dedicação”.

Na Associação Batukando, além do Maracatu Toca Brasa, há uma série de outras atividades relacionadas à cultura brasileira. O objetivo do grupo é tocar, tocar, tocar e ampliar o repertório além de introduzir coreografias. Embora os grupos de maracatu não sejam muito conhecidos na França, ela diz que a receptividade é boa porque há curiosidade em saber mais sobre instrumentos desconhecidos, escutar música em português, ver danças tradicionais. Muitos não acreditam que este ritmo venha do Brasil, porque conhecem apenas samba. Enquanto isso, em outro continente, intuindo que o Brasil deveria ter mais que samba, encontramos…

SCOTT KETTNER (Maracatu New York), nascido e criado na Flórida. No Brasil já passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, onde foi morar para aprender maracatu. Mas foi em Nova Iorque, onde mora atualmente, que descobriu a música brasileira.

Cursando jazz na universidade foi apresentado ao samba por uma professora alemã. Lá teve aulas de percussão com o conceituado baterista Billy Hart que falava muito sobre samba e bossa nova.

“Fiquei apaixonado pela música brasileira.Comecei a ouvir Milton Nascimento e vários outros músicos. Depois de dois anos estudando, comecei a pensar que o Brasil é muito grande e devia ter outros ritmos. Não pode ser só samba e bossa nova. Então cheguei em uma aula do Billy e perguntei se havia outro ritmo que eu poderia estudar. Ele respondeu que sim, o maracatu. Pedi para ele me mostrar, foi quando ele disse: `Eu não sei tocar, mas esse ritmo é muito massa. Você tem que ir lá aprender, depois volta para me ensinar`. Foi através do maracatu que descobri o Brasil.”

Seguindo o conselho de Billy, Scott parte para o Brasil. Sua primeira visita foi em 1999. Em 2000 foi morar em Recife onde conheceu Jorge Martins da Nação Estrela Brilhante, que segundo ele, foi um grande mentor em sua vida, apresentando-lhe além do maracatu, ciranda, forró, coco, candomblé.

Jorge tem uma escola chamada Corpos Percussivos e recebeu Scott em sua casa, numa favela de Recife. Dessa troca nasce a idéia do Nation Beat, um apresentando ao outro sua cultura, sua música. Perceberam que tinham muito em comum. Nation Beat é uma mistura das influências musicais brasileiras e norte-americanas.

“Sempre que se fala em Nation Beat a ênfase está na mistura, mas se você pensar no jazz, no blues, no chorinho, no samba, e no próprio maracatu vai perceber que todos nascem da mistura. Se não fossem os europeus com as nações da África não teria maracatu, não teria samba, não teria choro, não teria jazz, não teria Brasil ou Estados Unidos. Tudo é uma mistura. Isso é importante relembrar quando se fala das novas bandas que estão fazendo mistura com tal e tal, porque tem muitas pessoas que são prisioneiras da tradição. Vamos continuar esse diálogo com as culturas e continuar criando. Porque é a evolução da música.”

Scott volta para Nova Iorque e começa a dar aulas com uma alfaia, uma caixa, um gonguê e um abê. Mas ele não estava satisfeito, achava que os alunos precisavam entender que maracatu é uma cultura, assim organizou um grupo com vinte alunos e no carnaval de 2005 vieram para o Brasil. E foi esse grupo que deu origem ao Maracatu New York, o primeiro grupo de maracatu dos Estados Unidos.

Outro grupo de alunos retornou em 2007.  Hoje são aproximadamente vinte tambores, mais de cem alunos e vários grupos de maracatu espalhados pelos Estados Unidos. Duas vezes por ano ele viaja pelo país dando aula nas universidades. Para o ano de 2011 está programada a gravação do  CD do Maracatu New York.

Apresentamos apenas algumas personalidades que promovem a cultura brasileira através do maracatu. O que eles tem em comum, além da música, é a força que os impulsiona: paixão. Que é própria da nossa cultura.

Esperamos mais para eles em 2011. E agradecemos!

CPBrazil

 

Siga-os nos links abaixo

Alguns grupos de maracatu fora do Brasil
PAÍS GRUPO
FRANÇA
  • Toca Brasa
  • Toda Nação
  • Tambores Nago
  • Maracatu Nacao Oju Oba
  • Maracatu Macaíba
  • Onda Maracatu
  • Maracatu Zuou
  • Toda Nação
  • Amanita Muscaria
  • Maracatu Malicioso
  • Brasil Volcanique
UK AND IRELAND 

  • Dublin e Belfast – Maracatu Ilha Brilho
  • Manchester – Maracatu Juba do Leão
  • London – Maracatudo Mafua, Maracatu Estrela do Norte, Maracatu Pé de Jurema
  • Oxford –  Sol Samba
  • Brighton – Maracatu Cruzeiro do Sul
  • Ipswich – Maracatu Bafo de Onça
  • Escócia – Maracatu Escócia
SUÉCIA
  • Estocolmo – Baquetum
ALEMANHÃ
  • Maracatu Baque Forte
  • Maracatu Girafinha
  • Maracatu Cologne
  • Maracatu Sterne derElbe
ITÁLIA
  • Maracatu Estrela do Boi
ESPANHA
  • Barcelona -Maracatu Mandacaru
  • Madrid – Maracatu FM
USA
  • Maracatu New York

 

CANADA
  • Ontário – Baque de Bamba
  • Toronto – Maracatu Nunca Antes

 

AGRADECIMENTOS

– Claudia Alves Fabiano

– Sam Alexander e Mariana Pinho (por colaborarem com a matéria enviando a relação de grupos de maracatu)

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Comments
4 Responses to “Maracatu around the world”
  1. mike western disse:

    Somos um maracatu novo em Ipswich, Inglaterra: Maracatu Bafo da Onca (Facebook Bafo da Onca)

  2. Hi… CPBRAZIL….

    Just writing to inform you that from Madrid, we are very sad about not including into the list of Maracatu groups outside Brazil. also exist in Spain more groups we have even been in the Encontro of Paris, sharing with you all these rhythms that we go crazy.

    Maracatu FM Cultural Association, which is formed by the School “Sandalia de Cuero” and Boi de Oro, is based in Madrid, with a group of 12-15 people in the Boi, more professional, and a group at school over 40 people.

    Thank you very much and mucho axé for all …

    Israel from Madrid (Spain)

    • cpbrazilblog disse:

      Olá, Israel primeiramente queremos agradecer seu contato e dizer que Madrid não precisa ficar triste. Felizmente um blog é uma ferramenta bastante dinâmica que, ao contrário das impressas, pode ser atualizado quase em tempo real, o Maracatu FM já consta na lista.

      Na relação não estão todos os grupos de maracatu que atuam no exterior. Infelizmente não é fácil fazer esse levantamento, e não tinhamos essa pretensão, por isso colocamos “Alguns grupos de maracatu fora do Brasil”.

      Para fazer a matéria entramos em contato com pelo menos dez grupos, apenas os quatro (Maracatu Estrela do Norte, Maracatu Mafuá, Maracatu Toca Brasa e Maracatu New York) responderam. E foi através deles que obtivemos alguns nomes que constam na lista. Sem eles, a matéria seria publicada sem a relação.

      Você cita que existem vários grupos na Espanha, agradecemos se puder enviar os nomes para atualizarmos essa relação.

      Abraço,
      Jhaíra

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